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Não chore, garota, por causa da guerra. Ela é
boa. Porque seu namorado ergueu o braço para o céu e o assustado corcel
desgarrou-se sozinho, não chore. A guerra é boa. Roucos tambores retumbantes
do regimento, pequenas almas com sede de luta. Estes homens nasceram para
treinar e morrer. Inexplicável glória paira sobre eles. Grande é a batalha de
Deus, grande é seu reino, onde jazem cadáveres aos milhares. Não chore,
criança, pela guerra. Ela é boa. Porque seu pai tombou nas pálidas
trincheiras, roto em seu peito, golpeado e morto, não chore. A guerra é boa. Ágil
bandeira flamejante do regimento, águia com penacho vermelho e dourado. Estes
homens nasceram para treinar e morrer. Mostre-lhes a virtude do massacre, faça-lhes
planejar a excelência do matar, e o campo onde jazem cadáveres aos milhares. Mãe
cujo coração se pendura humilde como um botão sobre o brilho esplêndido da
mortalha do filho, não chore. A guerra é boa.
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LUCIANA GOYAZ 
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Em muitos
países, quando se trata de anistiar crimes políticos, surge a discussão para
saber se a medida deve ser concedida também aos condenados por atos de
terrorismo. As opiniões se dividem: há os que desejam uma anistia ampla e irrestrita
e os que excluem totalmente os terroristas.
Os primeiros
alegam: que muitas vezes o terrorismo foi a única forma de luta ou de
protesto contra o procedimento altamente violento e arbitrário do governo;
que foi o governo quem iniciou a violência; que foi o governo quem torturou
prisioneiros políticos que nem sempre usaram de terrorismo; que não houve
imparcialidade nos julgamentos; que não se permitiu aos condenados uma ampla
prova de defesa; que os tribunais não passaram de máquinas de condenação a
serviço do governo; que só uma anistia ampla é que permite eliminar os ódios,
os ressentimentos e promover uma conciliação nacional.
Os segundos
dizem: anistiar os terroristas é escarnecer de suas vítimas; que nada
justifica o homicídio de pessoas inocentes atingidas pelos atos terroristas;
que é render homenagem aos autores de crimes comuns, pois que os atos
terroristas não passam de crimes comuns sob o disfarce de um motivo político;
que é estabelecer um privilégio a favor da violência; que é um mau exemplo
para o futuro e um estímulo ao criminoso comum; que é favorecer a repetição
dos mesmos atos.
O terrorismo
tem sido também uma forma de luta pela libertação nacional em muitas partes
do mundo, principalmente nos países coloniais, e é claro que, quando
vitorioso, institui tribunais para julgar os que se lhe opunham,
transformando-se os seus agentes em verdadeiros heróis da independência
nacional. Politicamente não se justifica o terrorismo nem mesmo contra um
torturador, porque quem tortura é o sistema e não este ou aquele funcionário
da morte, que, embora pessoalmente responsável por executar ordens que sabe
ilegais, nem por isso deixa de ser um pau mandado pelos superiores ou conta
com a omissão destes.
Os grandes
líderes revolucionários não fazem vinganças pessoais contra quem os torturou,
colocando os interesses da causa que defendem acima dos sofrimentos pessoais,
coisa que a massa não entende, considerando esta atitude de uma frieza
sobre-humana, o que se deve à falta de maior esclarecimento político. É claro
que do ponto de vista humano dificilmente poder-se-ia condenar um indivíduo
comum que se vinga de um torturador, mas este é um caso muito raro, pois os
criminosos políticos em geral sabem da inutilidade das vinganças pessoais,
deixando que o torturador seja julgado objetivamente pelo processo
revolucionário.
Não se podem
também confundir com atos terroristas os que foram cometidos em situação de
fuga, através dos quais o que se pretendia era escapar à prisão e não
propriamente comprometer a segurança do regime.
É uma árdua
tarefa decidir-se contra ou a favor da anistia ao terrorista e somente os
altos interesses políticos de uma nação em situação concreta é que podem
aconselhar a medida e a sua forma de adoção, mormente considerando-se que, em
revisão do processo, muitos atos antes classificados como de natureza
terrorista, podem perder este caráter.
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Citação PABLO NERUDA - "O CARTEIRO E O POETA" (METÁFORAS) | O CARTEIRO E O POETA “Seu sorriso se espalha como uma borboleta no seu rosto". "O seu sorriso é como uma rosa, uma lança descoberta, o bater das águas, seu sorriso é uma onda prateada repentina". "Gosto quando fica em silêncio porque parece que está ausente.” A carta dizia o seguinte: “Amor, Amar é tão curto esquecer é tão longo. Nua você é simples como uma de suas mãos. Suave, terrena, pequena, transparente, redonda. Você tem linhas lunares caminhos de macieiras. Nua você é delicada como um grão de trigo. Nua você é azul como uma noite cubana. Você tem videiras e estrelas no cabelo Nua você é rasa e dourada como o verão numa igreja. Hoje deitei ao lado de uma jovem pura. Como se estivesse a orla de um grande oceano. Como se no centro de uma estrela em fogo no espaço. Gosto quando você fica parada é como se estivesse ausente. Você me ouve de longe. Minha voz não toca em você. Parece que seus olhos alçaram vôo. Parece que um beijo selou seus lábios”. |

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Separados pela língua, pela
política e pela história de seus colonizadores, tem em comum uma memória
coletiva. Eles aprenderam que do utensílio o branco sabe tudo. Mas o
utensílio apenas arranha a superfície das coisas, desconhece a duração,
ignora a vida. Já a negritude, ao invés, é uma compreensão por simpatia. O
segredo do negro é que as fontes de sua existência e as raízes de ser são
idênticas. O negro sabe que plantar é engravidar a terra. Depois cumpre ficar
imóvel, espiar, por que ele, homem, cresce ao mesmo tempo que seus cereais.
Se labor em África, é a repetição de ano em ano do coito sagrado. As técnicas
contaminaram o homem branco, mas é o negro o grande macho da terra, o esperma
do mundo.
Sobre o(a)
autor(a):Iniciou
na literatura clássica desde cedo. Fez seus estudos secundários em Paris, no
Lycée Henri IV. Despertou seu interesse pela Filosofia, influenciado pela
obra de Henry Bergson. Considerado por muitos o símbolo do intelectual
engajado.
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O mundo é um palco; os homens e as mulheres, meros artistas,
que entram nele e saem. Muitos papéis cada um tem no seu tempo; sete atos,
sete idades. Na primeira, o grito e a baba nos braços da mãe. Depois, o rosto
matinal de serpente que se arrasta para escola a contragosto. O amante vem
depois, fornalha acesa, celebrando as sobrancelhas da mulher desejada. Em
seguida, o soldado, cheio de juras feita sem propósito, a buscar a glória vã
na boca dos canhões. Segue-se o juiz, de olhar severo e estômago cheio,
impondo as sentenças e as certezas que seu papel exige. Na sexta idade o
mundo é amplo demais para as pernas mirradas e o falsete da voz infantil que
voltou. A última cena, remate desta trágica história, é o esquecimento, a
vista falha, os dentes, o gosto, tudo, nada.
Sobre o(a) autor(a):
Um dos maiores poetas de todos os tempos, nasceu em 1564, na
cidade de Stratford-upon-Avon, Londres.
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BOSSA NOVA AND JAZZ - NO PIANO.
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 | |  | Em princípio vale relembrar que, a história da Bossa Nova é a história de uma geração. Uma geração de jovens artistas brasileiros que acreditaram no futuro e conseguiram realizar o sonho de levar sua música aos quatro cantos do mundo. As primeiras manifestaçôes do que viria a ser conhecido como Bossa Nova ocorreram na década de 50, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ali, compositores, instrumentistas e cantores intelectualizados, amantes do jazz americano e da música erudita, tiveram participação efetiva no surgimento do gênero, que conseguiu unir a alegria do ritmo brasileiro às sofisticadas harmonias do jazz americano. Ao se falar de Bossa Nova não se pode deixar de citar Antonio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes, Candinho, João Gilberto, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Nara Leão, Ronaldo Bôscoli, Baden Powell, Luizinho Eça, os irmãos Castro Neves, Newton Mendonça, Chico Feitosa, Lula Freire, Durval Ferreira, Sylvia Teiles, Normando Santos, Luís Carlos Vinhas e muitos outros.Todos eles jovens músicos, compositores e intérpretes que, cansados do estilo operístico que dominava a música brasileira até então, buscavam algo realmente novo, que traduzisse seu estilo de vida e que combinasse mais com o seu apurado gosto musical. Impossível precisar quando a Bossa Nova realmente começou. Mas é certo que o lançamento, em 1958, dos discos Cançâo do Amor Demais, com Elizeth Cardoso interpretando composições de Tom e Vinicius, e Chega de Saudade - 78 rpm, com o clássico de Tom e Vinicius de um lado e Bim-bom, de João Gilberto, do outro -, nos quais João surpreendeu a todos com a nova batida de violão, foi o resultado de vários anos de experiências musicais. Experiências empreendidas não só por João mas por toda a turma que se encontrava nas famosas reuniões na casa de Nara Leão. Após o lançamento, em 1959, do primeiro LP de João Gilberto, também chamado Chega de Saudade, a Bossa Nova rapidamente se transformou em mania nacional e em poucos anos conquistou o mundo. Mas bem antes disso o Rio de Janeiro já vivia um raro momento de florescimento artístico, como poucas vezes se viu na história da cultura nacional. Não é à toa que os anos 50 são conhecidos como os "anos dourados". O Brasil vivia então um período de crescimento econômico que acabou se refletindo em todas as áreas. Em 1956, Juscelino Kubitschek tomou posse na Presidência da República com o slogan desenvolvimentista "50 anos em 5" No mesmo ano, foram lançados os romances 0 Encontro Marcado, do mineiro Fernando Sabino, e Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, dois importantes marcos na história da literatura brasileira. Paralelamente, surgia na poesia um movimento inspirado no concretismo pictórico, cuja maior característica foi a valorização gráfica da palavra e do qual participaram nomes como os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Ferreira Gulíar, entre outros. Em 1957, estreava o filme Rio Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos, um dos primeiros representantes do que viria a ser chamado Cinema Novo. Em 1958, a Seleção Brasileira de Futebol conquistava sua primeira Copa do Mundo, derrotando a seleção sueca por 5 a 2 e levando o povo brasileiro a cantar alegremente "A copa do mundo é nossa | Com brasileiro não há quem possa". Também em 1958, Jorge Amado lançava Gabriela Cravo e Canela e Gianfrancesco Guarnieri estreava no Teatro de Arena de São Paulo Eles Não Usam Blacktie, um marco na linguagem do teatro brasileiro. Em 1959, era lançado o movimento neoconcreto nas artes plásticas, do qual fizeram parte Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lígia Pape, entre outros. Em 1960, Juscelino Kubitschek inaugurava a nova capital do país, Brasília, que possivelmente teve a primeira música de Bossa Nova em sua homenagem, composta por Chico Feitosa. Billy Branco havia feito um sambinha jocoso, Não Vou, Não Vou Pra Brasília, e Chico musicou uma letra que falava da vida na nova cidade. O tema, chamado Paranoá, nunca foi gravado, mas encontra-se preservado numa gravação particular feita na época, com o próprio Chico Fim de Noite cantando. Foi neste contexto que surgiu o movimento que viria a revolucionar não só a música brasileira mas toda a produção musical internacional. Ainda nos anos 40, a grande novidade musical foi o lançamento, em 1946, de Copacabana um samba-canção de João de Barro e Alberto Ribeiro, gravado pelo cantor Dick Farney com claras influências da música americana. A composição foi a precursora do que se chamou samba moderno, cujos grandes intérpretes foram o próprio Dick Farney e Lúcio Alves. A suposta rivalidade destes dois grandes cantores era alimentada pela imprensa e por seus fã-clubes. No início dos anos 50, eram eles, com suas vozes aveludadas, os maiores ídolos da juventude brasileira. Ao lado de Ary Barroso, Johnny Alf, Garoto, Dolores Duran, Luiz Bonfá e Tito Madi, entre outros, influenciaram decisivamente a formação da geração que se consagraria através da Bossa Nova. | | |
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Antonio Pinto de
Medeiros
E se nada acontecer?
Se os rostos deformados e os sentidos mendigos, os olhos famintos e as mãos
que interrogam, a carne que sangra e afoga os desejos;
se tudo isso se transformar em cinza e ausência e a dúvida acenar ainda?
E se o silêncio pesar sobre o grito de angústia, se a esfinge recolher seu
sorriso transfigurado, se todos os sonhos forem abortados... e se nada
acontecer? E se tudo isso não tiver a menor importância?
Sobre o(a) autor(a):
Poeta, jornalista nascido em Manaus. Foi membro da Academia
Norte-riograndense de letras. Militou na imprensa do Rio de Janeiro, onde
faleceu em 1970.
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Desejar o Desejo
Marcia Tiburi
Costumamos querer sem saber o que queremos, costumamos falar de desejo sem
saber o que ele significa. Fala-se tanto em desejo que ficamos confusos com
seu sentido. Arthur Schopenhauer, no século XIX, pensava que o desejo era o
motor do sofrimento. Desejar resultava em ser infeliz. O filósofo tinha certa
razão, pois o desejo não vem com o equilíbrio como brinde. E a pergunta, a
princípio ingênua, “o desejo é afinal bom ou ruim?” não nos abandona. Apesar
da relação entre desejo e excesso, à sensação de aventura impressionante que
uma possível “descoberta” do desejo nos convida, nos tornamos temerosos do
desejo. Todavia, permanecemos desejando. Se não estamos às voltas à procura
de nosso desejo por conta própria, sempre há quem esteja por perto dizendo
que temos que encontra-lo e que isto será uma revolução pessoal. Há quem fale
da diferença entre querer e desejar, uns afirmando que o querer é racional e
consciente e o desejo é irracional e inconsciente. É uma boa distinção. De
qualquer modo, mesmo confusos, sabemos que o desejo sempre nos põe diante de
um abismo que apenas com paciência e atenção somos capazes de atravessar em
nosso dia a dia. Este abismo é o outro. É visando-o que descobrimos o que ele
realmente é. Estamos orientados a sempre desejar alguma coisa em relação ao
outro, seja ele algo, uma pessoa, a sociedade ou o futuro. Quando desejamos o
desejo, a vida vai bem. Nos movemos atentos à beleza, à tragédia, ao sublime
da existência e tudo pode ser interessante e motivo de alegria. Baruch
Spinoza, no século XVII, falava do desejo como uma espécie de impulso para a
vida. A sua melhor qualidade era a produção da alegria como afeto saudável que
nos fazia encontrar o outro como dádiva, luz, maravilha.
Para além da felicidade que advém do mero desejar o desejo, desejamos algo
diferente dele. Às vezes desejamos as coisas e, como não conquistamos tudo o
que queremos, sofremos. Quando desejamos pessoas podemos sofrer mais ainda,
já que ao desejar outra pessoa que deseja como nós, nos deparamos com o
obstáculo do seu próprio desejo que pode ser avesso ao nosso e nos rejeitar.
Muitas vezes, mesmo desejando alguém e tendo a sorte de uma amizade ou um amor
correspondido pomos tudo a perder. Se não desejamos o que o outro é, acabamos
por nossa própria conta que ele deveria ser. Mas quem teria este direito de
desejar por nós?
Como alguém deveria ser Não se trata apenas de desejar algo que o outro
“deveria” nos dar e chorar porque não fomos contemplados, ou assumir com
dignidade a frustração, mas de desejar o modo como alguém “deveria ser”. É
como se o outro não fosse o que é, devendo sempre ser diferente para agradar
o gosto do seu crítico de plantão. Tornamo-nos críticos exímios socialmente
na arte de falar mal, de apontar defeitos, de querer, afinal, que o outro
seja como queremos que ele seja. Nunca o que ele é. E se nos casamos com este
outro, ou nos tornamos pais, ou precisamos conviver no trabalho? Em casa, no
trabalho, na escola, na empresa, esta postura carrega um gesto de desamor
que, em graus variados, pode chegar ao ódio e à intolerância que são o
extremo da falta de capacidade de dialogar ou de, simplesmente, deixar que o
outro seja o que ele é, a seu modo. Mas e como “eu” deveria ser? Será que
esta pergunta teria consistência? Muitas vezes exigimos das pessoas atitudes
e comportamentos que nós mesmos não temos, mas que supomos nossa
característica mais essencial. Perguntados, entretanto, nem sempre podemos
afirmar com precisão onde, como e quando tais características se manifestam
em nós. Qual será a função desta exigência? Se critico o outro por sua
preguiça é por que, ao contrário, eu sou trabalhador e esforçado? Se o
critico por ignorância, eu sou sábio? Se o critico em sua antipatia, sou eu o
simpático? Se o critico por falta de ética, eu sou ético? Falando do outro eu
sempre me convenço de que sou melhor do que ele ou, antes, por me considerar
perfeito já afirmo minha competência na crítica. Mas, sobretudo, acoberto a
chance de que eu esteja na berlinda, sendo o alvo.
Nossos
comportamentos geram valores. Não são apenas o fruto de valores
preexistentes, mas nós mesmos construímos as bases a partir das quais agimos
em nosso futuro e interferimos, sobretudo, no modo de ser de outras pessoas.
Este modo de ser leva à decisões e ações mais ou menos livres que moldam a
totalidade da vida.
A liberdade do outro é o começo da minha Nossa sociedade costuma demonstrar
seus valores cultuando-os. Este culto mostra duas coisas: que temos uma
imensa capacidade de amar símbolos, pessoas ou coisas, e que, justamente por
isso, também somos capazes de muita ilusão. Quando desejamos ilusões não
atingimos a profundidade do nosso desejo. Não devemos apenas pensar nas
falsas necessidades que fazem operar nosso desejo, as inventadas pela
sociedade em seu modo de produção atual. Devemos pensar nos valores que
impomos a quem não é como nós somos e que compõem nosso desejo. A atenção
crítica a si mesmo e ao outro precisa de óculos cuja lente seja a liberdade
de ser que é direito de cada um. A liberdade do outro é onde inicia a minha. A
nossa dor e a dor dos outros.
Marcia Tiburi
Vivemos na atualidade o culto ao sofrimento. Tanto o que resulta de motivos
concretos como o desamparo e a violência, quanto
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o que
advém da experiência da angústia em relação à própria vida, uma espécie de
convivência com o nada cada vez mais facilitada pela forma de vida em que
nenhuma esfera nos dá garantia de sentido. Aprendemos, em nossa cultura, a
viver com o sofrimento ao ponto de dar sentido a ele ou até mesmo gozar por
meio dele. É um modo de se sobreviver ao nonsense. Muitos são felizes porque
são infelizes. Eis um paradoxo nada difícil de compreender em nosso tempo. A
dor parece ser mais do que sintoma corpóreo, ela parece residir na alma, a
instância abstrata que agrega sentimentos sempre de certo modo inacessíveis à
nossa capacidade de compreender. No corpo ela aparece como incômodo e
mal-estar. No nível do sentimento ela é o nome próprio do horror de ser quem
se é, de não poder ser outra pessoa. Até parece ser a dor o que nos resgata
do absurdo da vida e nos responde sobre quem somos.
Experimentada como algo íntimo, cada indivíduo em nossa cultura negligencia o
que a dor possa significar para o outro. Imaginamos, pela força que a
caracteriza como experiência pessoal, que ela é apenas nossa e não do outro.
“Eu tenho a minha dor” diz a música enquanto o outro parece não ter nenhuma.
É porque sentimos dor que cremos em nossa unidade. A dor, já foi o nome do
“eu” no romantismo, corrente de pensamento e estilo de vida que desde o
século XIX e pelo século XX afora criou seitas e adeptos nas artes, na
literatura, mas também na vida. Novamente a dor retorna em amálgama com o eu
à cultura definindo o eixo da depressão que, se para muitos é patologia e
medicável, não podemos esquecer que é, acima de tudo, desajuste existencial.
A este desacordo entre o “eu” e o mundo, a esta “dor de viver” marcadamente
romântica, Schopenhauer, o filósofo que melhor entendeu o sofrimento como um
aspecto inalienável da vida, erigiu sua visão de mundo. Um resumo de suas
idéias define que “sofro porque desejo”, mas sofrer e desejar são dois
reflexos da condição própria da vida.
Dor de viver
Entre
nós a metáfora da dor de viver se faz corpo. Eu que sou um corpo que vive e
experimenta a vida, já não sou mais “um eu” que pensa ou sente, mas alguém
que sofre. Eis o que sobra do sujeito moderno e do pós-moderno, que se
estilhaçou, se perdeu de vista e, a cada dia com mais veemência emite o
conhecido juízo acerca de seu lugar no mundo: estou deprimido. Poderia
traduzir sua frase pelo “não desejo nada”. Neste caso, não estaria a dizer
que “desejo não desejar”, mas que cessou o desejo. O paradoxo que surge é que
não desejar nada parece ser a solução para o sofrimento que vem do desejo,
quem não desejasse estaria a salvo. Mas não desejar nada é que se mostra como
sendo, na verdade, o sofrimento maior. Quem deprime sabe disso. Mas de onde
tirar forças para reconstruir o desejo?
A vontade
sem sentido que nos liga à vida e nos faz dar sentido à vida? Muitas vezes a
dor de viver apenas mascara a culpa que pomos no outro ao qual queremos
responsabilizar por nosso próprio fracasso diante do mistério da vida. Por
isso, a depressão é, muitas vezes, a máscara de um rosto chamado covardia. O
Espetáculo da dor Há um verdadeiro contentamento com a dor em nossa cultura.
Tal gosto pelo sofrimento é, todavia, escandalização da dor e,
paradoxalmente, sua banalização. De tanto ser vivida se tornou banal. A dor é
um elemento de uma democracia perversa, parece ser só o que realmente nos
esmeramos por compartilhar. As imagens da morte de indivíduos ou grupos, das
catástrofes históricas ou da violência em escala cotidiana alegram os olhos
de quem aprendeu a viver no mundo do espetáculo, o grande território que na
sociedade atual, mede a vida, os corpos, os desejos, com imagens prévias do
que devemos ser. O que chamamos espetáculo é ele mesmo um olho que nos vê e
forja o nosso próprio modo de olhar. Que futuro há para uma cultura que vive
o voyerismo da catástrofe, que goza com o sofrimento alheio pensando estar a
salvo dele? Há solidariedade que possa nos salvar diante do apelo à morte do
outro, ao ódio escancarado, a que nos convidam todos os dias as formas de
vida – descaso e violência - que vivemos?
A compaixão
O que
há de comum entre a nossa dor e a dor dos outros? O que poderia romper o
ciclo perverso de gozo e satisfação com o espetáculo da dor pessoal – na
depressão - e alheia – na catástrofe assistida? Schopenhauer falou no século
XIX sobre a compaixão para basear a ética. Seus críticos logo acordaram
dizendo que a justiça e não a compaixão seria um melhor fundamento da ética.
A justiça entendida como medida, como regramento, como o que sustenta a lei é
realmente algo que pode manter a sociedade em ordem, mas a idéia da compaixão
guarda um aspecto que não deve ser esquecido. A compaixão é a capacidade de
perceber o sofrimento alheio e saber que ele não é bom. O termo, do latim,
compassio, significa mais do que sofrimento comum: é o sentir a dor do outro
como se fosse a sua. Uma sociedade que aprendesse que todos estamos
mergulhados no
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sofrimento teria chance de verificar que previamente já há um
elo que nos une e que nossa tarefa é ultrapassar sua força de destruição. Saber e sofrer-Marcia Tiburi _ Dizer que o conhecimento faz
sofrer tornou-se habitual. O sofrimento foi ligado à filosofia e à literatura
a ponto de que não podemos imaginar um filósofo, ou alguém com cara de sábio
em meio a livros, pulando carnaval ou curtindo uma piscina. Isso é um mito.
Os filósofos e os escritores são ainda hoje constantemente vistos como
pessoas que sofrem por conhecerem a alma humana em sua profundidade
inacessível aos demais. Não quer dizer que conheçam a alma, nem que haja nela
uma profundidade inacessível. Isto é apenas possível. É, sobretudo, uma
crença compartilhada e, como tal, organiza nossa visão de muitas coisas.
Nunca saberemos se os filósofos antigos eram todos sofredores, nem se
conheciam a alma humana. Sabemos apenas que deixaram seu testemunho, no qual
confiamos e com os quais devemos discutir hoje para entender o nosso tempo.
Muitos
dos pensadores contribuíram com esta imagem tratando o sofrimento como seu
objeto de estudos, como Schopenhauer no século XIX. Outros fizeram de seu
próprio sofrimento o objeto de suas filosofias, como Pascal no século XVII.
Todos tentaram entender a relação entre conhecimento e sofrimento. Dos
antigos, Aristóteles, por exemplo, usou um termo de Hipócrates, a melancolia,
para explicar a relação do saber com o sofrimento. Tanto para o filósofo,
quanto para o médico, a melancolia era um temperamento que explicava,
inclusive, a inclinação intelectual de uma pessoa. Além de elucidar o pêndulo
entre a loucura e genialidade que caracterizava alguns indivíduos. Os mais
interessantes, porém, são alguns dos padres filósofos da Idade Média que
falavam de um certo “demônio do meio dia” que assolava os monges como um
fantasma obsedante. Antes dos filósofos perderem a crença em entidades sobrenaturais
devido ao longo processo de secularização que levou ao modo de se viver no
ocidente sempre a crer em ciência e tecnologia, o dito demônio era
considerado a causa da dispersão na leitura, da insatisfação no convívio
dentro do mosteiro, do rancor, do torpor, da vontade de morrer, das fantasias
de catástrofe, da preguiça, da indolência, e também da culpa por viver no
mesmo lugar sem capacidade de agir e ajudar os outros, ao mesmo tempo que
responsável por uma crítica geral a tudo a todos que o cercavam em sua
experiência monacal. Era o misto de maldade com desespero, de amor com ódio,
de autocrítica com crítica dos outros que caracterizava o quadro melancólico
que tanto fazia com que o monge se sentisse um inútil, quanto fazia com que
ele se tornasse um escritor, um artista envolvido em ilustrar os livros, um
filósofo em busca das verdades próximas ou distantes. A doença é o que cura
na verdade, muitos acreditavam que a doença não era ruim. Hugo de São Vítor,
por exemplo, falava em uma tristitia utilis, uma tristeza útil. Ela era
necessária para a evolução espiritual. Esta idéia pode parecer estranha, mas
nos ensina algo para os nossos tempos sombrios. Os monges acreditavam que a
doença a que chamavam melancolia carregava em si o seu contrário, uma forma
de saúde. Ela era uma espécie de cura.
Neste
aspecto não somos diferentes dos monges medievais, só perdemos a capacidade
de olhar para o que chamamos sofrimento como se ele fosse apenas um modo de
ser e o preço pago quando da descoberta da vida. Mas se o valorizássemos
melhor (e não mais) talvez pudéssemos aprender que a condição humana sempre
foi a mesma, que não somos diferentes e, portanto, a nossa dor não é
diferente. Desde sempre, se nos pensamos como espécie, sofremos. Quem tenta
saber mais ou melhor sofre de um novo jeito. Em vez de afundar no lodo da dor
emocional, podemos descobrir o potencial de transformação do conhecimento.
Que o sofrimento não é o resultado do conhecimento, mas seu ponto de
partida... saber pode ser mais a cura e a libertação da dor do que a dor.
Conhecer
para quê?
Que pensar nos faz sofrer pode até ser verdade. Tanto quanto pode ser verdade
que pensar pode ser um prazer imenso. Quem se ocupa em conhecer a si mesmo e
ao mundo sabe que fará a experiência de prazer e desprazer nesta viagem. Os
gregos tinham a idéia do phármakon, remédio e veneno ao mesmo tempo, para
explicar a dialética da vida. Ela se aplica ao conhecimento. Podemos sofrer
com ele e, do mesmo modo, alegrarmo-nos. A melancolia antiga é ancestral
direta da nossa depressão. O excesso de depressão nos dias de hoje não deixa
de ter relação com a sociedade do conhecimento e da informação em que
vivemos. Queremos resolver tudo pelo conhecimento, mas esquecemos de pensar
que o conhecimento é uma saída que deve servir a algo mais do que o mero
progresso da ciência. O conhecimento como potencial de saída da infelicidade,
mesmo que tenha nascido dela. Se alguém busca conhecer a si é porque deve
pretender com isso ser feliz. Ser feliz é mais ético e mais bonito do que
apenas buscar a si mesmo como uma verdade absoluta. Sobre esta verdade de si
ninguém tem garantia. A verdade não deve ser uma ilusão da resposta, mas a
busca.
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Do romance do
escritor inglês Daniel Defoe, A vida e as estranhas e surpreendentes
aventuras de Robinson Crusoé, publicado em 1719/1720. Significa, conforme os
autores, a construção de utopias, sociedades perfeitas, romancear os fatos
econômicos, acreditar na eficiência de movimentos filantrópicos para resolver
problemas sociais, a crença na existência do "homo oeconomicus",
aceitar que o indivíduo sozinho pode romper todos os entraves sociais que
impedem o seu progresso social ou fundar uma sociedade. O romance foi
considerado como um símbolo da ascensão da burguesia. Tem um sentido
pejorativo, pois refere-se sempre a um exagero da força dos elementos morais
no mecanismo da economia.
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O tributo é uma
forma de sujeição do indivíduo à soberania de um estado. Daí a razão pela
qual gregos e romanos consideravam o estado de liberdade incompatível com a
obrigação de contribuir obrigatoriamente para as despesas ordinárias do
Estado, encargo que jogavam sobre os povos vencidos ou conquistados. Nenhum
destes dois povos tinha noção de direitos subjetivos que se opunham ao
estado, reagindo pela fraude fiscal quando começaram a surgir os primeiros
tributos regulares. O Cristianismo não discutiu a obrigação tributária,
mandando dar a César o que é de César. Os pais da Igreja seguiram a mesma
orientação, reprovando a fraude fiscal. Mas se o imposto é injusto? ou se o
príncipe usa de violência para lançá-lo? Não deve ser pago pelo cidadão, diz
São Tomás de Aquino, porque só a lei justa obriga em consciência. Outros
casuístas medievais elaboraram a partir do século XIII a doutrina das leis
meramente penais: as leis fiscais só obrigam em razão da pena e não moralmente.
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O problema da
moralidade do imposto continuou sendo discutido nos séculos XVI e XVII pelos
teólogos, principalmente Molina, Suarez, Lessius, Lugo, concluindo quase
todos eles, através das mais diferentes argumentações por considerar a dívida
fiscal como uma dívida de justiça, desde que não haja arbitrariedade do
príncipe. Lutero, Calvino, Grotius, Pufendorf, Hobbes, Kant. Rousseau.
Bossuet, Bodin, defenderam o direito da autoridade civil na matéria. Locke e
Montesquieu exigiam que o imposto fosse consentido pelos contribuintes. Para
o liberalismo da segunda metade do século passado, o tributo um prêmio de
seguro ou o preço dos serviços prestados pelo estado. Socialismos e fascismos
exigem do individuo a manutenção da sociedade. Para os regimes burgueses é
uma forma de redistribuição de riquezas e um meio de realizar reformas
sócio-politicas ou justiça social. B. - Camille Scailteur, Le contribuable et l'état. Édition
Universelle. Bruxelas, 1961.
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